Códigos Suburbanos: Kenner e a Cultura da Pipa
- Matheus iéti

- 8 de jan.
- 2 min de leitura
Coelho Neto, 10:36 da manhã. Seja azul ou cinza, o céu é do subúrbio e sempre foi um território disputado, feito de criatividade e resistência. Com tantas histórias e narrativas únicas, de onde surgem os códigos que constroem o jeito de ser das periferias brasileiras? O que dizem sobre o país e sobre quem o inventa todos os dias?

É nesse cenário que damos vida ao Códigos Suburbanos, uma série editorial da CRIS. em parceria com a Kenner, voltada a traduzir os gestos, a estética e os saberes que fazem parte da cultura popular periférica.
Por trás dos clássicos tubo cinza, elefante, “dezinho”, “deizão”, da linha 4, chilena, roca, com cerol, indonésia, carretel e por aí vai… existe uma cultura que transforma o lazer em expressão coletiva. O ato de botar uma pipa no alto, normal em tantas periferias do país, é uma das formas mais importantes de afirmação popular, uma brincadeira que ensina desde cedo, a lidar com estratégia, vento e paciência.

Reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural, Histórico e Imaterial do Povo Carioca pela Lei nº 6.978 de 28 de junho de 2021, a pipa é um estilo de vida nas favelas do Rio e, por extensão, do Brasil. O brinquedo de papel fino e linha, que atravessa gerações, resiste às mudanças do tempo e do espaço urbano.

A pipa é uma tecnologia popular, construída a partir da criatividade, do manuseio, da tentativa e erro.
A pipa tem uma origem que ultrapassa fronteiras e séculos. Criada há mais de dois mil anos na China, era usada para fins militares e religiosos, servia pra medir distâncias, sinalizar batalhas e como uma ferramenta de comunicação. Ao chegar ao Brasil, o objeto foi ressignificado nas periferias, se tornando um instrumento de convivência, arte efêmera e identidade cultural.

O fenômeno se repete em diferentes espaços do país. No Rio e em São Paulo, são pipas e papagaios cortando a selva de pedra; em Recife e Salvador, as arraias dançam no vento forte; em Belém, as raias rasgam o céu entre antenas e fios. Mudam os nomes, mudam os códigos, mas a essência é a mesma: a pipa é, de norte a sul, uma linguagem nacional.
Segundo o IBGE, mais de 60% da população brasileira vive nas periferias urbanas, territórios onde a criatividade é uma forma de sobrevivência.

É nesses espaços que a pipa se consolida como herança cultural, um saber empírico que envolve matemática, física, coordenação e improviso. O pipeiro é, ao mesmo tempo, artesão, atleta e artista.
A cultura da pipa carrega também uma dimensão social. Nos bairros onde faltam equipamentos de lazer, o céu se torna campo de encontro e disputa, especialmente nas férias.
Nem vem, tá na minha!
O simples ato de aprender a botar uma pipa no alto ensina noções de respeito, convivência e limite: há quem ceda o vento, quem negocie espaço, quem proteja o voo do outro. É um aprendizado silencioso, que molda códigos de comportamento de rua.

Coé! Quando descer da laje, pega minha linha e a Kenner.



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