A$AP Rocky e a arte de frustrar a expectativa do público: Uma ideia sobre Punk Rocky, Don’t Be Dumb e trabalhar no seu próprio tempo

O último disco solo oficial de A$AP Rocky, Testing, saiu em 2018. Desde então, vimos uma presença constante do artista fora do lugar onde o público mais cobra. Rocky esteve na moda, no cinema, na cultura visual, nos grandes eventos, na vida pública ao lado de Rihanna e alguns singles aqui e ali. Ainda assim, pro rap norte-americano, nada disso substitui o gesto simbólico máximo: lançar um álbum.

É nesse intervalo, entre presença e ausência, que Don’t Be Dumb foi se transformando em algo maior do que um projeto musical. O disco passou a habitar um território quase mítico, alimentado por promessas, adiamentos, pistas falsas e teasers que nunca se concretizavam. A espera virou parte da obra e isso com certeza teve consequências.
Na segunda-feira, 05/01, quando Punk Rocky finalmente surge como o primeiro grande sinal concreto de que o álbum existe, ele chega como algo que grande parte do público já nem esperava mais, com as expectativas baixas.
A$AP ROCKY Fazendo a cartilha de lançamento à sua maneira
Anunciado com data, horário e contagem regressiva no YouTube, Punk Rocky seguiu, à primeira vista, o ritual clássico de lançamentos da indústria. A promessa era simples: um novo single, um novo vídeo, um passo definitivo rumo a Don’t Be Dumb, cuja data vinha sendo finalmente cravada. Mas o que se viu foi outra coisa.
O enredo do vídeo começa, alguém grita “Shut the f*ck up”, a tela escurece e o conteúdo some. O link passa a exibir a mensagem de que o vídeo foi removido pelo próprio uploader. O público, especialmente o norte-americano, reage como reage há anos: questionando a seriedade do rollout.
Winona Ryder, o subúrbio e o estranho familiar
Quando o vídeo finalmente se apresenta por inteiro, ele não tenta compensar a frustração com grandiosidade óbvia. Pelo contrário: aposta no estranhamento, uma das características mais interessantes do trabalho visual do artista.
Winona Ryder aparece como a vizinha de Rocky. Um rosto carregado de memória cultural, associado a personagens deslocados, marginais ao “normal”, especialmente dentro do imaginário dos anos 90. O subúrbio no visual é quase claustrofóbico e Winona não interage de forma direta; ela observa. E observar, nesse clipe, é um pilar central no meio daquele caos.

AWGE e o controle do caos
A direção assinada por A$AP Rocky ao lado de Folkert Verdoorn e Simon Becks reforça uma constante da AWGE, música e vídeo se complementam e quase que disputam protagonismo.
Desde o início, a AWGE opera numa lógica própria. Em Punk Rocky, isso aparece de forma mais contida, mas não menos intencional. Cada escolha visual parece menos preocupada em explicar e mais focada em provocar.
Rocky não se coloca como centro estável. Ele é, muitas vezes, apenas mais um elemento dentro de um cenário que parece maior, mais estranho e mais imprevisível do que ele próprio.
“Punk Rocky” é punk?
Apesar do título, não há nada de explicitamente punk em Punk Rocky. A música se aproxima muito mais de um dream-rap etéreo, com riffs nebulosos, sem refrão claro, mais próxima de faixas como Sundress do que de qualquer explosão agressiva.
A expectativa de impacto é frustrada por uma experiência mais sensorial do que imediata. Em uma indústria obcecada por ganchos, refrões virais e primeiros 15 segundos, Rocky aposta numa faixa que é quase que uma evolução das experiências que o artista tem implementado ao longo dos anos.
A parceria com Tim Burton e o delírio como forma de linguagem
A capa de Don’t Be Dumb, concebida por Tim Burton, amarra visualmente tudo o que o clipe sugere. Burton entra nesse universo como uma extensão conceitual do que Rocky quer apresentar ao público. Seu estilo exagerado e ao mesmo tempo sombrio, traduz bem o espírito desse projeto, pelo menos até aqui.
Ponto central: a quebra de expectativa como estratégia de posicionamento
No fundo, Punk Rocky não fala só de amor, relações ou sentimentos confusos. Ele fala de tempo. Do tempo do artista contra o tempo da indústria. Do tempo da criação contra o tempo da cobrança, longe do algoritmo.
O público norte-americano, talvez mais do que qualquer outro, foi treinado a exigir lançamentos constantes, álbuns frequentes e respostas rápidas. Rocky parece consciente disso, sua ascensão em Live. Love. A$AP (2011), veio disso e ele parece disposto a brincar com essa ansiedade, transformando frustração em matéria-prima artística.
Se isso é totalmente intencional ou fruto de um processo caótico pouco importa. O efeito é claro: Don’t Be Dumb traça seu próprio ritmo, mesmo que isso signifique irritar, confundir ou perder parte da audiência no caminho.
Por fim, depois de quase oito anos, o simples fato de Punk Rocky existir já soa como um evento e o que nos espera nos próximos dias é o lançamento oficial (ou não) da tão aguardada obra.

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