Graduation e a geração SAVEMONEY: Como um disco de 2007 ajudou a moldar o rap alternativo de Chicago
- Matheus iéti

- 14 de mar.
- 4 min de leitura
Em 11 de setembro de 2007, o hip hop viveu um daqueles momentos que, em retrospecto, parecem definir o rumo de uma década inteira. Na mesma semana, dois dos maiores nomes da cultura negra dos Estados Unidos lançavam novos discos: de um lado, 50 Cent apresentava Curtis; do outro, Kanye West chegava às lojas com Graduation.

A rivalidade foi amplamente explorada pela indústria musical. Porém, o episódio representava um choque entre duas visões de futuro para o rap. Enquanto 50 Cent ainda simbolizava a hegemonia do gangsta rap que dominara o início dos anos 2000, Kanye West apostava em algo diferente: um hip hop que dialogava com música eletrônica, pop global e estética de arena.
Graduation estreou no topo da Billboard 200, superando Curtis com mais de 950 mil cópias vendidas na primeira semana. Ao longo dos anos seguintes, o álbum se consolidaria como um dos projetos mais influentes da era digital do rap.
Mesmo quase duas décadas depois, sua presença cultural continua evidente. Em 2025, o disco voltou a figurar entre os álbuns de rap mais reproduzidos nas plataformas de streaming, acumulando bilhões de execuções em serviços como Spotify, um fenômeno raro pra um trabalho lançado em 2007.
Mas a influência mais profunda de Graduation talvez não esteja apenas nos números. Ela aparece na forma como o disco ajudou a moldar uma nova geração de artistas em Chicago. Entre eles, um coletivo criativo que surgiria alguns anos depois: SAVEMONEY.
Um Rap diferente do que se via na “CHIRAQ”
No início da década de 2010, um grupo de jovens artistas de Chicago começou a se reunir em torno de diferentes projetos criativos. Eles faziam música, produziam vídeos, desenhavam capas, organizavam eventos e frequentavam espaços culturais da cidade. Esse grupo acabaria ficando conhecido como SAVEMONEY.
O coletivo funcionava como uma rede artística multidisciplinar. Entre seus membros estavam artistas que mais tarde alcançariam projeção nacional, como Chance the Rapper, Vic Mensa, Joey Purp e Towkio. Na prática, cada integrante desenvolvia seu próprio trabalho, mas todos participavam da construção coletiva da cena.
Chicago oferecia o ambiente ideal para esse tipo de colaboração. A cidade possuía uma tradição musical profundamente híbrida, berço do blues elétrico, da house music e de uma forte cena jazzística. Essa diversidade cultural ajudou a moldar uma geração de artistas que enxergava o rap como um espaço aberto para experimentação. E muitos deles cresceram ouvindo Graduation.

As mixtapes que apresentaram uma nova Chicago
O primeiro grande momento da SAVEMONEY aconteceu em 2012, quando Chance the Rapper lançou a mixtape 10 Day. Gravado após uma suspensão escolar, o projeto rapidamente ganhou atenção em blogs e fóruns de hip hop.
Mas foi com Acid Rap, em 2013, que o rapper se transformou em um fenômeno cultural. A mixtape combinava rap, jazz psicodélico, gospel e soul em faixas que transitavam entre introspecção, humor e crítica social.

Na mesma época, Vic Mensa iniciava sua carreira solo após o fim da banda Kids These Days. Seu projeto INNANETAPE revelou um artista disposto a explorar diferentes linguagens musicais.
Uma das faixas que sintetiza essa proposta é Orange Soda, música que mistura um instrumental relaxado com uma performance vocal quase conversacional fugindo das fórmulas tradicionais do que se fazia em Chicago na época.
Joey Purp também começava a se destacar na cena local. Seu projeto iiiDrops consolidaria sua identidade artística alguns anos depois, trazendo narrativas pessoais sobre juventude, violência urbana e amadurecimento em Chicago.
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Towkio, por sua vez, explorava uma abordagem mais performática e psicodélica em projetos como .Wav Theory, expandindo ainda mais o espectro sonoro da crew. Apesar das diferenças entre seus estilos, havia um elemento comum em todos esses trabalhos: uma liberdade criativa incomum dentro do rap mainstream do período.
O som de Graduation
Quando Kanye West lançou Graduation, ele já era um dos produtores mais influentes do hip hop. Ainda assim, o álbum representava uma mudança significativa em sua estética.
Faixas como Stronger, construída sobre um sample de Daft Punk, introduziam elementos da música eletrônica no centro do rap comercial. Outras músicas, como Flashing Lights, Good Life e I Wonder, exploravam sintetizadores, arranjos orquestrais e estruturas mais próximas da música pop global. Pra geração que crescia em Chicago naquele momento, essa ideia seria fundamental.
Rap político, carismático e experimental
Nos anos seguintes, os artistas da SAVEMONEY desenvolveram um trabalho que refletia exatamente essa abertura. Chance the Rapper construiu uma discografia marcada por temas como espiritualidade, identidade racial e experiências pessoais, frequentemente combinados com humor e referências culturais inesperadas.

Um dos registros mais emblemáticos dessa fase é Sunday Candy, colaboração que mistura gospel, soul e hip hop em uma celebração musical profundamente ligada às tradições da cidade.
Vic Mensa, por sua vez, desenvolveu uma escrita mais introspectiva e intensa, explorando narrativas pessoais e experimentações sonoras em seus projetos. Joey Purp trouxe uma abordagem mais crua e reflexiva, enquanto Towkio ampliou ainda mais as referências visuais e performáticas da cena.

O efeito dominó de um disco
Observando esse percurso em retrospecto, é possível enxergar uma cadeia de influências relativamente clara. Graduation abriu o rap para novas possibilidades sonoras no final dos anos 2000. A geração SAVEMONEY cresceu dentro desse universo e explorou essas possibilidades ao longo da década seguinte.
E os experimentos dessa cena ajudaram a consolidar a diversidade estética que hoje domina o hip hop contemporâneo. Chance the Rapper resumiu essa relação de forma direta em entrevistas ao longo da carreira: Kanye West foi um dos primeiros artistas de Chicago a mostrar que o rap podia ser expansivo e culturalmente abrangente.
Quase vinte anos após seu lançamento, Graduation continua sendo exatamente esse tipo de obra, um disco que não apenas marcou uma era, mas que ajudou a criar as condições para que outras cenas, como a SAVEMONEY, reinventassem o rap a partir de Chicago.



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