Um dossiê sobre o papel do Programa do Jô Soares na consolidação de artistas nacionais
- Matheus iéti

- 4 de mar.
- 4 min de leitura
Quando Jô Soares morreu, em 5 de agosto de 2022, aos 84 anos, tivemos o fim de um dos ciclos mais duradouros da televisão brasileira. Humorista, escritor, ator e entrevistador, o comunicador construiu, ao longo de quase três décadas no formato talk show, um dos principais espaços de mediação cultural da TV aberta no país.

Exibido pela TV Globo entre 2000 e 2016, o Programa do Jô realizou um total estimado de 14.426 entrevistas ao longo de 16 temporadas. Antes disso, no Jô Soares Onze e Meia, no SBT, o apresentador havia conduzido mais de 6 mil conversas. Juntos, os dois programas consolidaram um dos maiores acervos de entrevistas da história da televisão brasileira.
Este dossiê revisita o papel dessas entrevistas na consolidação de artistas nacionais, especialmente os de circuitos populares, analisando como as dinâmicas de exposição e legitimação cultural daquele período diferem do modelo atual, marcado pela consolidação da internet como vitrine pro grande público.

Formação e trajetória de Jô Soares antes do talk show
Antes de se tornar entrevistador, Jô Soares acumulava mais de três décadas de experiência na televisão. Atuou como roteirista, ator e criador em programas que marcaram época, como Família Trapo, Planeta dos Homens e Viva o Gordo.
Esse percurso contribuiu pra construção de um estilo de entrevista baseado em domínio de tempo cênico, improviso e muito humor. Ao migrar definitivamente pro formato de talk show, no fim dos anos 1980, Jô já era uma figura consolidada da televisão brasileira.
No modelo que ajudou a estabelecer, o entrevistador assumia postura de mediação com os entrevistados. O formato combinava comédia, informação e apresentação musical, criando um espaço de união através do riso.
A força da Televisão aberta no período
Nos anos 1990 e 2000, a televisão aberta ocupava posição central na formação de opinião e na construção de notoriedade artística. A estreia do Programa do Jô na Globo, em 3 de abril de 2000, registrou média de 17 pontos no Ibope, índice expressivo pra faixa horária. Nesse contexto, a presença no programa representava visibilidade nacional imediata.
A curadoria editorial das emissoras funcionava como filtro de acesso à grande audiência, e o talk show com o passar dos anos, passou a se tornar um espaço estratégico de apresentação e reposicionamento de imagem pública.
Diversos artistas que surgiram de movimentos culturais alternativos ou periféricos passaram pelo programa em momentos decisivos de suas trajetórias. O Planet Hemp participou da atração em 1997, em meio a debates públicos sobre legalização da maconha. A entrevista permitiu que o grupo pudesse contextualizar seu discurso em rede nacional, num período em que enfrentava cancelamentos de shows e controvérsias midiáticas.
O Ratos de Porão levou o hardcore ao horário nobre da entrevista televisiva em 1995. O Sepultura esteve no programa em 1990, quando já era reconhecido internacionalmente, ampliando a visibilidade do metal brasileiro no mercado interno.
O Charlie Brown Jr. participou em 1997 e 2001, apresentando ao público de TV aberta a estética ligada ao skate e à cultura urbana. Marcelo D2 ao longo das décadas, se tornou um convidado recorrente, com participações marcantes tanto no SBT quanto na Globo, discutindo música, indústria fonográfica, falando sobre sua família, experiências e temas sociais.
Também passaram pelo programa lendas como Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva e O Rappa, ampliando o alcance televisivo de gêneros como samba, rap, rock e reggae, aclamados pela massa, mas nem sempre pela crítica elitizada.
Como era o formato do Programa do Jô?
Gravado em São Paulo, em estúdio com capacidade para aproximadamente 300 pessoas, o Programa do Jô combinava entrevistas, apresentações musicais ao vivo e quadros fixos. O Sexteto do Jô acompanhava a atração, reforçando a presença da música como um pilar do show.

Entre os quadros de maior repercussão esteve “As Meninas do Jô”, mesa-redonda composta por jornalistas e analistas políticas que discutiam temas da agenda nacional. O programa também foi a primeira atração de variedades da Globo a oferecer closed caption, ampliando o acesso para pessoas com deficiência auditiva.
“Jô pautou a sociedade brasileira com questões para além do cotidiano” Luciano Maluly, da Escola de Comunicações e Artes da USP
A mudança nas dinâmicas de exposição
A consolidação de artistas via televisão aberta ocorreu em um período anterior à centralidade das redes sociais e plataformas digitais. Até meados dos anos 2000, a visibilidade dependia majoritariamente de curadoria editorial de emissoras e grandes veículos.
A partir da década de 2010, a expansão de plataformas como YouTube, o surgimento do Twitter, Facebook, Instagram e serviços de streaming alteraram esse modelo. A construção de audiência passou a se descentralizar, baseada em métricas de engajamento, seguidores e algoritmos.
Enquanto a televisão oferecia alcance massivo concentrado e validação institucional, a internet passou a permitir autonomia narrativa e formação de comunidades segmentadas. O resultado pode ser visto na exposição mais democrática de artistas, mas também mais fragmentada e instável, diminuindo a vida útil de suas carreiras.
Nesse novo cenário, o papel de mediadores culturais centralizados, como o exercido por Jô Soares, se tornou cada vez menos frequente.
Dimensão histórica e popular de Jô Soares
Somando mais de 20 mil entrevistas entre SBT e Globo, Jô Soares construiu um dos maiores acervos audiovisuais de conversas com artistas, intelectuais, atletas e figuras públicas no Brasil.
Durante quase três décadas no formato talk show, atravessou diferentes governos, transformações tecnológicas e mudanças estruturais na indústria cultural. Pra uma geração que cresceu nos anos 1990 e 2000, a meia-noite televisiva foi espaço recorrente de vitrine pros artistas nacionais de peso. Revisitar essas entrevistas permite compreender como a televisão aberta operou como instância de legitimação cultural em um período anterior à predominância digital.
Assista abaixo cinco entrevistas inesquecíveis que Jô Soares Mediou.



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