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Resenha faixa a faixa Muita Ostra e Pouca Pérola, de Lessa Gustavo e Mazé Foram

Foto do escritor: CRIS.
CRIS.
há 14 minutos
5 min de leitura

O projeto de 6 faixas reafirma: não é de hoje que Lessa Gustavo,  artista multidisciplinar da Baixada Fluminense, vem experimentando de forma excepcional novas sonoridades.


Fotografia por @eternomonge
Fotografia por @eternomonge

Se você estiver caindo de paraquedas na cena alternativa do hip hop nacional e ouvir o EP Mundo dos HITS, de 2016, entendendo o contexto daquele ano, talvez consiga entender quanto o caminho de experimentação do artista é vasto, mas, principalmente, vai pela beira, pelo que ninguém tá olhando, uma característica quase que natural e corajosa de quem é obcecado pelo que faz.


Em trabalhos como Wilson Grey (2022), Cor de Deus Quando Foge e Mojica (2023) você consegue ver traços de uma sonoridade trabalhada nos mínimos detalhes, rimas que funcionam como uma textura pra pintura principal que ele trabalha, com excelentes visuais e um conceito bem interessante por trás de cada uma.


Entre os projetos citados até aqui, existem outros, então acredito que seja interessante pra você que tá conhecendo o artista agora, logo depois desse documento e de ouvir seu mais novo EP Muita Ostra e Pouca Pérola, ao lado de Mazé Foram, entender um pouco mais sobre as dinâmicas do artista através da sua própria percepção.


E, por falar no Mazé, Lavagna (2025), ak e SAIMON, ambos de 2026, demonstram sua assinatura, que chega junto a Lessa Gustavo com uma colaboração que, na minha opinião, coloca o duo com um trabalho acima de projetos gringos mais comerciais na mesma pegada, como o de MIKE e Earl Sweatshirt (procure saber).


Enfim... a intenção desse documento é abrir espaço pra resenha super coesa do OrtizdeVerdade, que canetou anotações incríveis, com provavelmente a melhor resenha que você verá na internet sobre o EP. Aprecie.


Fotografia por @eternomonge
Fotografia por @eternomonge

Uma leitura de OrtizdeVerdade


Poucos artistas transitam com tanta naturalidade entre a densidade e a leveza quanto Lessa Gustavo, conduzindo o ouvinte de David Lynch aos versículos bíblicos. Desapegado de fórmulas e padrões genéricos, o artista mergulha em diferentes linguagens estéticas e rompe continuamente as expectativas em torno de seus lançamentos. Sua obra se destaca pela identidade própria, pela versatilidade e pela capacidade de transformar referências diversas em uma linguagem autoral e coerente.


Em seu álbum mais aquático até aqui, Lessa Gustavo equilibra extremos com rara elegância, conduzindo o ouvinte por paisagens sonoras construídas a partir dos instrumentais de Mazé Foram. Em ascensão na cena, o produtor, que já assinou trabalhos ao lado de integrantes do selo BgReal, oferecendo assim uma base sofisticada que dialoga organicamente com a proposta estética do disco, ampliando sua atmosfera contemplativa sem comprometer sua força expressiva.


Fotografia por @eternomonge
Fotografia por @eternomonge

Transitando entre produções inspiradas no Michigan rap e batidas drumless, marcas recorrentes de sua sonoridade, Lessa aproxima o ouvinte de seu universo lírico-onírico com a precisão de um rimador que faz da economia de palavras e da densidade imagética alguns de seus principais atributos.


A arquitetura sonora do álbum permite diferentes chaves interpretativas, sendo a principal delas o encadeamento das faixas como capítulos de uma mesma narrativa. Nesse percurso, a água deixa de funcionar apenas como imagem recorrente para assumir o papel de metáfora estruturante da obra, atravessando letras, atmosferas e escolhas de produção.


Tubarão Martelo




Logo na faixa de abertura, a água se apresenta como espaço de imersão psicológica. Versos como "Outrora me encontrava submerso, no fundo de um lago bem longe do reflexo" e "Espelho trincado e ainda convexo" sugerem um sujeito em processo de autoinvestigação, incapaz de reconhecer plenamente a própria imagem.


A referência ao "olho de peixe procurando o Nemo" desloca a narrativa para um imaginário cinematográfico e lúdico, enquanto a observação de que o "Tubarão Martelo tem seu ponto cego" transforma uma característica biológica em metáfora para as limitações da percepção humana.


A produção reforça essa atmosfera. O tratamento quase sintético da voz cria uma sensação de estranhamento, aproximando a faixa de uma experiência onírica. Já a repetição insistente de "Splash" funciona como um recurso sonoro que simula mergulhos sucessivos, conduzindo o ouvinte cada vez mais para o interior da narrativa. A profundidade deixa de ser apenas espacial e torna-se também emocional.



Farsa e Tempo



Se a primeira faixa mergulha na interioridade, "Farsa e Tempo" desloca a reflexão para a experiência temporal. A introdução do metrônomo não cumpre apenas uma função rítmica; ele transforma o tempo em matéria sensível da própria composição, fazendo com que o ouvinte o perceba antes mesmo de tematizá-lo racionalmente. A água retorna sob outra configuração, agora associada ao mar e à sua composição salgada, ampliando o simbolismo inaugurado na abertura do disco. Ao afirmar que sabe que "tudo é ilusório", o eu lírico entra em uma espiral de dúvida existencial, na qual a água deixa de representar apenas profundidade para assumir a forma de um vórtice psíquico.


Entre imagens tropicais e fúnebres, Lessa introduz inquietações relacionadas ao crescimento populacional, à escassez de recursos naturais e à fragilidade da existência. A conclusão da faixa, "quase tudo muda com o tempo", sintetiza a percepção de que a transformação e a impermanência constituem o eixo central da experiência humana.


Na Boca da Orca



Em "Na Boca da Orca", a metáfora aquática assume uma dimensão mais concreta e cotidiana. O verso "Depois de entregar a meta, eu vou fumar um cigarro. Mano, eu tô brincando, eu nem fumo" ironiza a lógica produtivista contemporânea ao mesmo tempo que desmonta expectativas sobre o comportamento do próprio narrador.


A figura do "último aventureiro vivo" dialoga com um sentimento de exaustão diante das exigências do mercado de trabalho, enquanto expressões como "eu tô exercitando o vocabulário" reafirmam a escrita como forma de resistência e elaboração subjetiva. A bocada orca simboliza um espaço de risco, absorção e incerteza, reforçando a travessia iniciada na primeira faixa.


Uma Jangada na Lava



A aparente contradição do título concentra um dos aspectos mais interessantes do álbum. A jangada, tradicionalmente associada à água, é deslocada para a lava, instaurando uma imagem impossível que sintetiza a tensão permanente entre sobrevivência e destruição.

A faixa prolonga as inquietações apresentadas anteriormente, deslocando-as para o campo das relações afetivas. O verso "Não entendo como aguentam você" evidencia a perplexidade do eu lírico diante da dificuldade de convivência e da instabilidade emocional, transformando o relacionamento em mais uma travessia incerta.


Azul Marinho



"Azul Marinho" aprofunda o caráter contemplativo do disco. A recorrência da água adquire um sentido mais introspectivo, aproximando memória, desejo e percepção. A personificação dos sentimentos e a descrição minuciosa dos estados emocionais revelam um sujeito que procura compreender a si mesmo enquanto atravessa paisagens simultaneamente físicas e afetivas.


Cortinas e Lençóis ft. obelga


Único feat do projeto, "Cortinas e Lençóis" conta com a participação do rapper, produtor e compositor mineiro Obelga. A colaboração amplia o universo estético do EP sem romper sua unidade narrativa.


O contraste entre a água gelada e o café produz uma oposição simbólica entre desaceleração e estímulo. Enquanto a água preserva seu papel contemplativo, o café assume uma função quase nootrópica, impulsionando um personagem desgastado pela própria existência. Obelga acrescenta uma camada estilística própria ao mencionar uma peça da Polo Ralph Lauren, única referência explícita a uma marca em todo o trabalho, reforçando o diálogo entre os artistas.


 
 
 

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CRIS.

<Perspectiva da rua>_

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