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Preservando Joias: O papel do vinil na cultura e na economia negra

  • Foto do escritor: Matheus iéti
    Matheus iéti
  • 23 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Desde os bailes de soul e samba-rock (um salve ao Movimento Black Rio, à Chic Show e às lendas que abriram as portas do ritmo no país), até os samples que atravessam o rap, o vinil é uma base física de uma herança cultural que nunca se perdeu.



Nesse contexto, a gente entra de cabeça em uma pesquisa a convite da Loja Patuá pra entender o papel do vinil na cultura e na economia negra, a partir da passagem do coletivo Black Girls Love Vinyl pelo Brasil.


Contextualizando…

Em um mundo ritmado, a escuta profunda que o vinil exige se tornou uma prática de resistência, uma pausa intencional para ouvir, tocar obras longe da perspectiva caótica dos streamings. Na música negra, esse gesto carrega uma dimensão ainda maior: é um ato de preservação.



Um mercado que volta a girar

Em 2023, o mercado brasileiro de vinis dobrou de tamanho em relação ao ano anterior, alcançando cerca de R$ 11 milhões em receita, segundo a Pró-Música, mais de quinze vezes o valor registrado em 2019. Foi o ano em que os discos de vinil superaram as vendas de CDs e DVDs no país, consolidando uma virada histórica.



No cenário global, o retorno é ainda mais expressivo: nos Estados Unidos, 41 milhões de vinis foram vendidos em 2022, ultrapassando os 33 milhões de CDs, algo que não acontecia desde 1987. No Reino Unido, o crescimento anual em 2023 foi de 11,7%, com 5,9 milhões de discos vendidos.


O mercado global projeta um crescimento médio de 6% ao ano até 2030, o que mostra que essa retomada não é nostálgica, mas estratégica: o vinil voltou a ser ativo econômico, criativo e simbólico.

Fontes: RIAA, BPI, GVR


No Brasil, esse retorno tem rosto. Lojas como a Patuá, selos independentes e artistas pretos têm reposicionado o vinil como um vetor da economia criativa negra, ressignificando sua circulação.


 

A reedição de discos históricos, como os de Cátia de França, Luiz Melodia, Alcione e outros mestres, somado ao surgimento de novas prensas independentes mostram que o som analógico se reconecta à sua função original: dar voz a quem construiu os ritmos fundamentais pra nossa cultura.


BGLV tá na pista!

É nesse contexto que o Black Girls Love Vinyl ganha ainda mais força. Criado em 2018 por Alexandria Sade, o projeto nasceu com o propósito de celebrar e documentar a relação das mulheres negras com o vinil, em um espaço onde a escuta é também um ato político.


Em iniciativas como o projeto “Godmothers on Record”, o coletivo resgata o legado de mulheres negras que pavimentaram a indústria fonográfica, nomes como Evelyn Joyce Johnson, Vivian Carter e Barbara Gardner Proctor, pioneiras na fundação de gravadoras e na distribuição de música negra nos Estados Unidos. São histórias que lembram que, por trás de cada rotação, há também mãos pretas girando a música.



Alexandria define o movimento como um lugar onde “Black women lead and shape every facet of music, vinyl, and audiophile culture” e isso ecoa muito além das fronteiras do Brooklyn, onde o projeto nasceu. O BGLV se espalhou por países da diáspora africana, construindo pontes entre culturas e afirmando o vinil como símbolo de identidade, autonomia e circulação preta.


Black women lead and shape every facet of music, vinyl, and audiophile culture.

O crescimento do mercado de vinil movimenta toda uma cadeia produtiva: prensas, selos, ilustradores, lojistas, DJs, feiras e produtores locais. E, dentro dessa engrenagem, a comunidade negra ocupa um papel central, seja nas referências musicais que sustentam o formato, seja na inovação cultural que o faz continuar vivo.


Mas o acesso ainda é desigual. Os altos custos de importação, a pouca disponibilidade de prensas nacionais e o preço dos discos importados criam barreiras para quem está na base da cadeia criativa. Mesmo assim, a presença de movimentos como o BGLV e espaços como a Patuá reconfigura essa lógica, propondo outras formas de redistribuição e pertencimento.



Na era dos algoritmos, o vinil segue girando como um manifesto, uma forma de lembrar que escutar é, antes de tudo, um ato de comunidade.

 
 
 

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