Mesmas cores, mesmos valores… A resposta de Emicida tá no início da caminhada
- ietisonoravoz
- 5 de jan.
- 3 min de leitura
Seis anos depois de AmarElo, Emicida retorna ao formato mais arriscado possível pra um artista do seu tamanho: um disco que condensa o início do seu desejo de fazer Rap. Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores não nasce do impulso de atualização, tampouco da necessidade de reafirmação. Ele parte de uma pergunta mais profunda e menos confortável: o que fazer quando o caminho já foi aberto?

Se a “fase estética” foi marcada pela urgência da linguagem, batalhas, mixtapes, experimentação e a “metafísica” pela busca de essência e cura (O Glorioso Retorno…, Sobre Crianças…, AmarElo), o que se anuncia agora é outra coisa: a consciência de pertencimento a uma linhagem.
Em novembro de 2025, Emicida publicou um texto em que se apropria da auto‑categorização de Julio Cortázar para compreender a própria trajetória. A divisão entre fase estética, metafísica e histórica não aparece como exercício intelectual gratuito, mas como chave de leitura de um artista que se percebe, agora, menos como indivíduo isolado e mais como expressão de um fluxo coletivo.
Não se trata apenas de lançar um novo álbum. Trata-se de escolher como existir artisticamente, num cenário em que o rap brasileiro vive uma tensão constante entre palavra e metas de algoritmo.

É nesse ponto que os Racionais MCs deixam de ser apenas referência e passam a operar como espelho.
Contextualizando a ideia de Emicida e DJ NYACK…
No Dia Mundial do Hip Hop, Emicida reaparece sob o nome LRX e lança Emicida Racional VL3: As Aventuras de DJ Relíquia e LRX. Mais do que um projeto paralelo, a mixtape funciona como um reencontro deliberado com a base que formou seu estilo lírico: o rap como exercício técnico, jogo de palavras, precisão rítmica e identidade construída na rua.
No segundo volume dessa sequência, mirar em Cores & Valores (2014) talvez o disco mais incompreendido da discografia dos Racionais é uma escolha reveladora.
Emicida absorve a lógica do projeto, faz uso da economia de palavras, da centralidade da convicção e emoção como combustível da obra. Mais do que em qualquer outro momento de sua carreira, o processo de criação de Mesmas Cores & Mesmos Valores é inseparável de seu conteúdo.
Na obra, direção musical, artística e conceitual passam por Emicida. As gravações acontecem em ambientes íntimos, atravessadas pela vida doméstica, pelos sons da natureza e pela presença da família. Dona Jacira - que descansa em paz - gravou a si mesma. As filhas participam. O estúdio deixou de ser espaço de isolamento pra se tornar uma extensão das emoções reunidas.
Faixas como “Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior)” instauram um clima de suspensão. Em “Quanto vale o show memo?”, a vida cotidiana vira matéria filosófica: melhor ser um guerreiro no jardim do que um jardineiro na guerra. A imagem é simples, mas poderosa. Ela desloca o heroísmo do conflito para o cuidado.
Mesmas Cores & Mesmos Valores lembra que o rap nasce da língua: da costura paciente de ideias. Não há desdém pelo presente, mas há uma recusa consciente de submeter a criação às lógicas do algoritmo.

A metáfora é precisa. Racionais e Emicida não ocupam pontos distintos da história: partem do mesmo eixo, em momentos diferentes.
Ao retornar ao começo, Emicida abre um novo ciclo. O disco é um trabalho que reafirma o rap como tradição construída por uma continuidade que carrega o peso político de uma responsabilidade histórica.
Em um cenário marcado por incertezas sobre o futuro da criação autoral, Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores & Mesmos Valores faz um gesto raro: olha para trás para seguir adiante. E, nesse movimento, lembra que a arte, quando levada a sério, ainda pode ser lugar de permanência.

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